O mapa do acaso

O mapa do acaso

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José Enrique Barreiro
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Entre o ser e o paradoxo

 Bruno Tolentino

Nossa poesia, rica em vários registros que vão do lirismo amoroso à análise do Cotidiano, mantém-se quase que inteiramente presa ao contingente. Com as raras exceções aqui e ali, a crítica das categorias do real e a indagação dos fundamentos do ser, a dimensão ontológico-metafísica, são as grandes ausentes de nossa lírica. Infelizmente são também os pilares de sustentação da totalidade da lírica ocidental.

Nesse sentido somos um espaço em branco no painel. Por cá, é como se a morte não existisse, o ser não fosse um enigma e a tragédia humana não passasse de uma serie de anedotas. Daí nossa obsessão memorialista, nossa paixão infantil pelo que chamamos “a História”; nossa famosa ausência de memória é um mito derivado dessa fuga tranquila ante a dimensão vertical da aventura humana. Nossa atitude ante o paradoxo tende ao meramente referencial. Somos um avatar do positivismo o mais rasteiro, sem que sejamos, afinal, nem rasteiros nem positivistas.

Neste livro, José Enrique Barreiro parece-me cortar verticalmente na carne mesma desse impasse. Que não nos iluda a aparente leveza de tom, seus vários registros, inclusive a ironia. Esta estreia poética é uma inquirição longamente maturada, justamente do sentido maior da existência humana, que será sempre uma confrontação entre o ser e o paradoxo. Seu trabalho de poeta, aparentemente encantatório, parece-me antes uma interrogação tão oblíqua quanto grave, ainda quando bem-humorada, dos vários cacos, frestas e fiapos cercando o espantoso enigma do ser.

Claro, todos os nossos bons poetas tocaram essa tangente. Mas coube sempre ao “segundo time”, aos “reservas da seleção”, a particular mirada sobre esses extremos. Só nos menores, ou medianos (não obstante os mestres de porte de um Schmidt, um Abgar, um Milano etc), encontramos essa problemática, quase sempre resolvida a um nível formal insatisfatório. Com exceção dos dois grandes simbolistas, de Murilo Mendes e Cecília Meireles, a totalidade de nossos maiores preferiu afastar-se prudentemente desse veio, na verdade uma veia, a própria jugular, senão a aorta da grande arte da escrita, do Verbo.

José Enrique Barreiro reúne neste primeiro livro os elementos essenciais de uma aventura reflexiva realmente ousada. Em todos os quatro poemas-pilares na estrutura do livro o autor cerca e mapeia regiões insólitas em nossa lírica. “O esquecimento do eterno” defende a urgência de recuperar a ligação vertical, o senso do Sagrado, sem perda da dimensão horizontal em que o ser participa das “coisas do mundo”. Em “O próximo ancestral” reafirma sua crença no destino evolutivo da criatura e em “O mapa do acaso” cerca por múltiplos lados a sede de um conhecimento que libere a carga escura da alma e lhe confirme um sentido além da mera existência. Meu preferido é o primeiro deles, “Os navegadores do nome”. Ecos do Seferis de Mithistorema e do Quasímodo de Dare e avere, sem que o autor se dê conta, aparentam esta rápida obra-prima à grande família mediterrânea. Em cada um de seus textos principais, assim como ao longo de todo o livro, a dimensão transcendente, aflorada ou sugerida, convive em alta medida de rigor formal com as sensações mais simples, em versos de estrutura aberta.

Não me parece prematuro assinalar nesta estreia o primeiro rosto de um poeta de primeira linha. No primeiro momento em que folheei estas páginas soube disto. “Raramente me enganou o instinto do tato”, disse-me uma vez W. H. Auden; e acrescentou que muitas vezes ouvira um bom poema e ficara-lhe a dúvida; mas cada vez que tivera em mãos um grande texto, por mais curto que fosse, ouvira (ou vira?) a voz que não permite equívocos. Ou a arte da escrita deve sua oralidade à sinestesia própria da página, ou será instinto do tato mesmo. Seja o que seja, o autor deste O mapa do acaso corre um risco considerável: o de nos dever em seguida a obra poética cuja verticalidade e substância estes versos cortejam e prometem.